Início OPINIÃO PENSE NUM ABSURDO: Ele é negro, mas tem o cabelo liso
PENSE NUM ABSURDO: Ele é negro, mas tem o cabelo liso

PENSE NUM ABSURDO: Ele é negro, mas tem o cabelo liso

0
0

Não sou militante de movimento pela igualdade racial ou algo do tipo, mas tenho em minha consciência conceitos e preconceitos com os quais julgo tudo e todos. Não adianta vir aqui, escrever palavras bonitas sobre um tema tão polêmico como a questão racial e sair pela tangente ou fazer mea culpa como se dissesse “é só porque sou negro”.

Debates raciais são levados, no Brasil, com certo receio. Na verdade, as discussões sempre giram em torno dos mesmos temas: cultura, movimento, discriminação e cotas. É um lengalenga sem fim. Ainda mais quando dois grupos de movimento racial com linhas ideológicas divergentes se encontram e travam ferozes discussões sobre o sistema de cotas. É cada idéia absurda. Para uns é a forma mais rápida de fazer justiça, outros defendem que o sistema de cotas subestima a inteligência de negros e índios. Eu me formei através da bolsa do Prouni e tenho orgulho disso. Posso não ser o melhor, mas indiscutivelmente, não fui o pior aluno da turma. E olha que a concorrência era grande. Diga-se.

O mais engraçado de tudo é ver por aí “uns sem noção” arrotar que hoje não há mais discriminação. “Isso é página virada”, dizem eles. Página virada? Então meu caro, porque negros recebem menores salários, são maioria nas cadeias, porque ao conseguir condições melhores de vida se tornam “abusados”, “negro de alma branca” ou “não, você não é negro, é moreno, é diferente…”, essa última é a pior.

Anos atrás, ouvi um comentário feito sem nenhuma vontade de ofender, mas que me fez refletir bastante sobre essas relações sociais tupiniquins. Indo para a faculdade no ônibus das 18h, uma amiga (grande amiga, na verdade) e eu conversávamos sobre um trabalho que desenvolveríamos em sua cidade natal. Neste instante, em tom de brincadeira e total descontração, ela solta: “Vamos, vamos sim! Já falei pra toda a minha família que ‘tô’ levando um amigo. Já disse: ele é negro, mas tem o cabelo liso”. Ensaiei um sorriso tímido, mas voltei atrás. Fui o caminho todo pensando nisso.

Não acredito de maneira alguma que ela tenha realmente dito algo nesse sentido, mas fiquei refletindo sobre quantas vezes fui confundido com vendedor em supermercados ou dos olhos atentos que se jogavam sobre mim quando entrava em um desses estabelecimentos ou quando meus amigos, desde a infância, diziam que minha cor estava entre o “canela ou chocolate”. Foi nesse instante, nesse momento, que me dei conta da minha cor, da minha condição enquanto pessoa negra e sobre como eu poderia evitar determinadas situações em que minha negritude é colocada em cheque.

O grande problema da educação racial no país esta no fato de que negros conhecem muito pouco sobre sua história. A verdade dói. O preconceito começa dentro de casa ou bem cedo na escola quando a menina é chamada de “Xuxa preta” e o menino de “pedaço de carvão”. Tive sorte por nascer com cabelo “liso” e nariz “afilado”? Minha afilhada que tem um tom de pele mais claro que o meu não teve. Aos seis anos o cabelo foi alisado. Sei de casos em que os pais colocavam pregador de roupas no nariz de seus bebes na torcida do nariz mais fino.

Isto é uma tragédia. É a luta diária entre o que se é e o que se quer ser. Eu não tenho vergonha da minha, da minha história e de combater diariamente a discriminação racial, o ódio e preconceito enraizado em nossa sociedade.

 

*Jornalista e cientista político, Denilson Avelino é editor-chefe do Portal iFloriano.com. Foi repórter da Rede CBN (Central Brasileira de Notícias) no Piauí. Vencedor de algumas premiações, como o Prêmio Piauí de Reportagem, Avelino já passou pelas redações do Sistema de Comunicação de Picos, Rede Meio Norte e Revista Fecomércio. Escreve sobre cotidiano, sociedade, política e tudo mais que der vontade. 

DEIXE SEU COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *